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5 Câmaras Partidas, 2011 | 420doc#21

5 Câmaras Partidas, 2011

5 Câmaras Partidas, o primeiro documentário palestiniano nomeado para um Oscar, dá uma esmagadora representação da injustiça e da brutalidade em grande escala contra os residentes de uma aldeia chamada Bilin na Cisjordânia. Os colonos israelitas exultam de poder quando se mudam para os novos apartamentos nos cumes vizinhos a Bilin, colonatos em terras roubadas aos camponeses de Bilin. Não só os habitantes de Bilin são cruelmente atacados e oprimidos, como até mesmo as oliveiras que lhes restam são queimadas por colonos insolentes ou arrancadas pelo exército usando máquinas de construção blindadas.

Com início em 2005 e filmando ao longo de um período de cinco anos com uma sucessão de cinco máquinas de filmar danificadas uma após outra por soldados ou colonos israelitas, Emad Burnat, um camponês tornado cineasta amador, documentou os protestos contra as confiscações de terras pelo governo israelita e a construção do muro que ocupa as suas terras cultivadas e os irá separar delas. Apesar do grande risco pessoal, ele continuou a filmar com um sentimento de obrigação moral para com o seu povo e o desejo de alertar o mundo sobre a luta para salvar a sua terra. Em 2009, Burnat conseguiu o auxílio do activista e realizador israelita Guy Davidi para o ajudar a fazer o filme.

O filme ganhou muitos prémios mundiais, na Europa e nos EUA e no Festival de Cinema de Sundance. Que este documentário não tenha ganho um Oscar não é surpreendente num clima em que foi o filme de características reaccionárias Argo que recebeu o prémio de melhor filme do ano. Apesar de ter um convite oficial para assistir à cerimónia dos Prémios da Academia, quando Emad Burnat, a esposa e o filho mais novo Gibreel chegaram a Los Angeles, foram detidos e quase deportados pelos agentes norte-americanos de imigração antes de o realizador Michael Moore ter intervindo e chamado os advogados da Academia.

O filme é contado em cinco episódios, cada um correspondendo à vida de uma máquinas de filmar. O crescimento ao longo de cinco anos do seu recém-nascido filho Gibreel é justaposto à luta da aldeia liderada pelos dois melhores amigos de Emad. Ambos são decididos e todos são corajosos. Gradualmente, começamos a compreender o complexo pensamento de muitos dos residentes da aldeia à medida que eles evoluem através desta experiência. Conseguimos conhecer vários deles bastante bem. Este filme não é apenas uma colecção de filmagens; tem um poderoso ritmo dramático e uma evolução dos personagens.

Um dos aldeãos, Phil, um homem alto afectuosamente chamado de elefante pelas crianças, usa o humor para manter a moral e a unidade dos aldeãos que resistem face a humilhações, gás lacrimogéneo, balas de borracha e balas reais. Ele salienta frequentemente que estes protestos específicos são não violentos e apelam aos soldados israelitas na base da humanidade deles. «Somos todos primos», diz-lhes ele.

Apesar disso, os soldados executam inexoravelmente as ordens de cumprimento de uma estratégia israelita projectada para esmorecer a vontade de resistir dos aldeãos através do desgaste – o quebrar de ossos e rostos, a destruição de casas e, de vez em quando, a tomada de vidas. O exército não tenta matar toda a gente, mas sim mostrar que o preço pela recusa a se submeterem é mais alto do que qualquer um possa estar disposto a pagar. A não-violência de Phil e as tentativas de encontrar pontos de convergência com os soldados não alteram isto.

A luta afecta enormemente o filho de Emad, Gibreel. Quando era criança, algumas das primeiras palavras dele foram exército, cerco e bala. Emad diz que a melhor forma de proteger o filho, apesar da profunda preocupação com a segurança de Gibreel, é ele compreender como é realmente o mundo e a vulnerabilidade das vidas humanas. Quando um dos adultos favoritos de Gibreel é morto pelos soldados, ele fica profundamente transtornado e pergunta ao pai porque é que os soldados agem da forma como o fazem, e sobretudo o que se pode fazer em relação a isso. A audiência não pode deixar de fazer a mesma pergunta.

Em 5 Câmaras Partidas, testemunhamos os soldados a chegar à noite à aldeia e a prender crianças de 12 e 13 anos e a arrastá-los para a prisão entre os protestos das famílias e dos activistas internacionais que apoiam a luta deles, entre os quais alguns israelitas. Durante os protestos, cada um dos irmãos de Emad são presos um a um. Então, uma noite os soldados dirigem-se a Emad. Dizem-lhe que pare de filmar, que está numa zona militar fechada. Essa zona militar fechada, responde ele, é a própria casa dele. Ele vai para a prisão durante três semanas e é colocado em prisão domiciliária num outro edifício durante dois meses.
texto via SNUMAG

http://420doc.blogspot.com

A Outra Guerra, 2010 | 420doc#20

A Outra Guerra, 2010
"Durante a guerra colonial jovens portugueses tinham de escolher entre as forças armadas ou a frota nacional de pesca do bacalhau. Ao longo de uma viagem no “Creoula” - o último lugre português da pesca do bacalhau - três antigos pescadores, sendo que um deles é natural de Aver-o-Mar, relembram as difíceis condições de trabalho da sua juventude, as razões das suas escolhas de vida e os constrangimentos nos seus destinos." 

«Partir para a guerra ou partir para a pesca do bacalhau? Já quase ninguém recorda que os jovens portugueses tinham nesta alternativa uma possibilidade de escapar aos perigos de um conflito militar em três frentes.

Os pescadores bacalhoeiros estavam sujeitos a condições especiais, particularmente duras, a uma disciplina muito semelhante à militar. Quando iniciámos este projecto, fascinava-nos, em particular, o dilema imposto pelo regime de os homens terem que escolher entre a guerra colonial e a pesca do bacalhau.

Iniciámos o trabalho de pesquisa convencidos de que muitos jovens do interior teriam escolhido partir para a pesca do bacalhau, por ela ter a vantagem sobre a guerra colonial de ser um trabalho remunerado e de gozar da auréola romântica e heróica construída pelo regime. À medida que nos envolvíamos na pesquisa de documentos e de testemunhos, fomos descobrindo que a pesca não tinha esse poder de atracção senão para aqueles que já estavam familiarizados com o mar. Terá sido porque o recrutamento se fazia apenas nos centros piscatórios? Terá sido porque aqueles que iam para a guerra colonial já sabiam que o que os esperava nos bancos do Norte era algo parecido com uma guerra? A nossa ideia de partida começava a ser abalada, o que fazia crescer ainda mais a motivação para fazer deste filme uma oportunidade de investigação «ao vivo». Pelos relatos que tínhamos ouvido sobre a pesca nos bancos da Terra Nova, parecia-nos tratar-se efectivamente da escolha entre duas guerras.

«Sem a guerra, não teria havido pesca do bacalhau», diz-nos um dos antigos pescadores do filme. Com efeito, nos anos 50, a PIDE andava pelas praias, a recrutar à força pescadores para os bancos da Terra Nova. Mas, quando rebenta a guerra colonial, e perante a escolha que lhes é imposta pelo regime, são os próprios pescadores que passam a procurar ser contratados nos bacalhoeiros para «fugir à guerra».

Neste documentário, tomamos como marcos o início dos anos 60 e o final dos anos 70. É um período de mudanças importantes na política portuguesa da pesca do bacalhau, que coincide com o início e o fim da guerra colonial em África e com um dos grandes fluxos de emigração também relacionado com a guerra e as suas consequências económicas e políticas: por um lado, a pauperização de largas camadas da população; por outro, uma deserção numerosa. Esse período irá prolongar-se até meados dos anos 70 com a queda do regime, em Abril de 1974, e o desmantelamento da frota bacalhoeira.

Damos, no nosso trabalho, um especial valor aos contributos orais dos protagonistas, com toda a carga de subjectividade que eles trazem consigo. A história não se faz apenas a partir dos arquivos. É indispensável que no reviver desta parte da história portuguesa participem os actores directos que trabalharam a bordo dos navios bacalhoeiros e que felizmente ainda se encontram entre nós, hoje, para nos poderem transmitir as suas memórias.»


Uma boa surpresa a apresentação deste novo documentário “bacalhoeiro” na Póvoa. É mais uma dessas pérolas do passado marítimo português que andam guardadas por aí fora. Será muito interessante ver uma campanha do "Creoula" ainda durante a Guerra Colonial, provavelmente a preto e branco, a considerar pelas imagens. Vindo em época natalícia, permitirá mais uma vez mostrar aos interessados que o bacalhau desde há séculos foi muito mais que um pedaço de peixe no prato.

Elsa Sertório Nasceu em Lisboa em 1956. É licenciada em Sociologia pela Universidade de Paris VIII, Paris. Autora e realizadora do documentário A outra Guerra, produção Kintop. Tem trabalhado como produtora na Kintop e anteriormente em teatro e dança contemporânea. Foi produtora executiva dos documentários Natureza Morta-Visages d'une Dictature e 48. É autora dos seguintes livros: Mulheres Imigrantes, com Filipa Sousa Pereira, editora Ela Por Ela, 2004; Livro Negro do Racismo em Portugal, Edições Dinossauro, 2001.

Ansgar Schäfer Nasceu em 1959. Licenciou-se em Literatura e Língua alemã e Ciências Políticas. Trabalha como historiador e professor universitário. Co-autor, co-realizador e produtor do documentário Ein Haus der Begegnung. 40 Jahre Goethe-Institut Lissabon. Autor de dois projectos multimédia sobre a história portuguesa. Produtor dos documentários Natureza Morta/Visages d’une Dictature (2005), 48 (2009) e de Luz Obscura, As Lágrimas de Georgette e A Outra Guerra. Publicou vários artigos sobre as relações luso-alemães durante a 2.ª Guerra Mundial em revistas nacionais e internacionais. Actualmente prepara a sua tese de doutoramento sobre documentário histórico e a publicação de um livro sobre os Refugiados Alemães em Portugal.»